Acometida por um incontrolável desejo de ler, obedeço.
Escolhas argentinas: Borges e Cortázar.
O primeiro sempre quis, me remete a aulas de física quântica (!), e faço minha estréia. O segundo chegou pelo Foto na Parede, e me trouxe curiosidade.
Recomendo os dois. E transcrevo um pequeno texto do Borges. Se você gostar desse, pronto: você irá gostar de Borges, como eu.
as unhas.
Docéis meias os afagam de dia e sapatos de couro bem pregado os protegem, mas os dedos dos meus pés não querem saber. Nada mais lhes interessa além de emitir unhas: lâminas córneas, semitransparentes e elásticas, para defender-se; de quem? Brutos e desconfiados como eles só, não deixam nem por um segundo de preparar esse tênue arsenal. Renegam o universo e o êxtase para continuar elaborando infindavelmente pontas inúteis, que aparam e tornam a aparar as bruscas tesouradas da Solingen. Em noventa dias crepusculares de resguardo pré-natal estabeleceram essa única indústria. Quando eu estiver recolhido no La Recoleta, em uma casa cinzenta guarnecida de flores secas e talismãs, continuarão seu obstinado trabalho, até que os modere a decomposição. Eles, e a barba em meu rosto.
Jorge Luís Borges.




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