You are currently browsing the daily archive for 13 janeiro, 2007.

Existem períodos em que, por algum motivo, tenho a impressão que temas se repetem na minha vida – em lugares distintos, envolvendo pessoas e circunstâncias distintas.

Ultimamente, me pego várias vezes questionando porque alguém lê um livro de auto-ajuda. Um único argumento, normalmente banal, que se arrasta por 350 páginas. E que quando faz sucesso, se desdobra em inúmeros volumes. Normalmente escritos por autores que nunca provam ter aplicado com sucesso as tais regras descritas longa e cansativamente. “Little Miss Sunshine” – filme lindo, que eu amei e vi no final de 2006 – traduz muito bem esse meu questionamento. Praticamente no dia seguinte a ida ao cinema, fui convidada para o lançamento de um livro de auto-ajuda – pelo menos no meu conceito. E, sem questionar a inteligência e competência do autor, me perguntava com qual autoridade ele escreve tal livro.

Partindo da premissa que, quem lê auto-ajuda, está em busca de inspiração para conquistar seus objetivos através de obstinação e coragem, porque estas mesmas pessoas não se inspiram em relatos reais envolvendo muita obstinação e coragem? Porque ler “Nunca desista de seus sonhos”, e não “The Scottish Himalaya Expedition”, citado no post aí embaixo? W.H. Murray sem dúvida sabe o que é obstinação e coragem. Minha amiga Simone, pelo final de 2006, andou lendo alguns livros sobre expedições e relatos de sobrevivência, e esse tema era recorrente em nossas conversas.

Hoje, em almoço de trabalho, dois colegas conversam sobre suas últimas leituras. Enquanto um diz que “Os 7 hábitos das pessoas muito eficazes” será sua próxima leitura, o outro diz que “A insustentável leveza do ser” foi o único livro que não terminou na vida, complementando logo em seguida que provavelmente foi porque leu na idade errada.

“A insustentável leveza do ser”
está na lista de meus livros favoritos e, sem dúvida, eu o li no momento certo da minha vida. O livro por si só é maravilhoso, mas a história, idéias e pensamentos contidos ali, faziam todo sentido e me ajudaram bastante naquele momento de separação pelo qual eu passava mas não compreendia. No almoço de hoje, começei a me questionar como funciona a tal da auto-ajuda. Críticas literárias a parte (por favor!!), talvez os hábitos das pessoas muito eficazes funcione para o meu colega exatamente como Milan Kundera funcionou para mim.

Dia desses no Casa no Mato, a Mari declarou seu amor a Clarice Lispector. Como amante de literatura – principalmente de romances – há muito penso que deveria dedicar-me a superar o trauma que tenho de Clarice Lispector. Aos 11 anos, tive que ler “A hora da estrela” na escola. Definitivamente, o livro errado para o momento errado. Me causou um trauma que perdura até hoje.

Finalmente, acabo de falar aí embaixo sobre textos lidos na hora certa. Mais uma vez, sinto que estou me repetindo. Auto-ajuda e momentos certos para as coisas certas – e eu me questionando de onde vem essa recorrência… Vou parando por hoje, porque já me repeti demais.

Anúncios

Por motivos que depois conto aqui, hoje cheguei em casa louca para folhear um de meus livros preferidos – “A insustentável leveza do ser” de Milan Kundera – e reler seu início que fala sobre o conceito do eterno retorno – presente constantemente na literatura de Nietzche, e que inspira o nome do livro.

A teria do eterno retorno parte da premissa que o tempo é infinito mas os acontecimentos não o são. O universo está constantemente mudando de estado, mas em algum momento os estados irão repetir-se, já que são finitos. Esta idéia de ciclos vêm de longa data, está presente em religiões como o budismo e o hinduísmo, e já foi provada e refutada por inúmeros matemáticos e físicos.

Nietzche não afirma a existência do eterno retorno, mas fala da idéia aterrorizante de sua existência e do peso insustentável que isso nos traria. Como escreveu Milan Kundera:
“Se cada segundo de nossa vida se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Essa idéia é atroz. No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma responsabilidade insustentável. É isso que leva Nietzche a dizer que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos”.

Por outro lado, a negação do eterno retorno nos torna mais leves, fazendo sentir-nos menos responsáveis por cada ato ou gesto. Essa leveza, ao longo do tempo, é capaz de mudar toda uma perspectiva. Citando novamente trechos do livro:

“…Se a revolução francesa devesse se repetir eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre. Mas como ela trata de algo que não voltará, os anos sangrentos não passam de palavras, teorias, discussões, são mais leves que uma pluma, já não provocam medo.”

“… Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres, como insignificantes. O que escolher, então? O peso ou a leveza?”.

Parmênides já fazia esse questionamento no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo estaria dividido em pares de opostos: a luz e a escuridão, o grosso e o fino, o quente e o frio, o pesado e o leve. Considerava que um dos pólos era negativo e outro positivo. Para ele, o leve é positivo e o pesado negativo. Será?

A leveza torna-se insustentável quando banaliza nossos atos. Daí a insustentável leveza do ser, tão bem catacterizada por Milan Kundera ao longo do livro, expressa no personagem de Thomas, e em sua história com Tereza.

A genialidade de um cara que parte de um questionamento filosófico como esse, inspirado por Nietzche, junta com um fato histórico (a primavera de praga) e escreve um romance de tirar o fôlego me impressiona. Milan Kundera é dos meus autores preferidos. Qual não foi minha surpresa ao perceber que, em Praga, capital de sua terra natal, não há uma referência ao seu trabalho – talvez porque esteja vivo e vivendo em Paris.

Essa semana li (ou reli), por meios distintos, dois textos que caíram como uma luva – sabe aquele texto, citação, música que você lê, relê ou ouve na hora certa? Naquele momento em que fazem todo o sentido, em que parece que “a ficha cai”? Pois é, nessa semana, foram esses dois.

Um brasileiríssimo, vindo lá do Pantanal, em forma de canção. Simone me relembrou essa música hoje. O outro veio da Escócia, pensamento inspirado por uma expedição ao Himalaia.

“Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe
Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei”
Tocando em frente – Almir Sater e Renato Teixeira

“Em relação a todos os atos de iniciativa e criação, há uma verdade elementar cujo desconhecimento mata inúmeras idéias e esplêndidos planos: a de que, no momento em que nos comprometemos definitivamente, a providência se move também. Uma seqüência de acontecimentos brota da decisão, fazendo surgir a nosso favor toda sorte de incidentes não previstos, encontros e assistência material, que nenhum homem poderia sonhar que pudesse vir em sua direção. Eu aprendi a respeitar profundamente esses versos de Goethe:

O que quer que você possa fazer ou sonhe que possa, comece. A ousadia contém genialidade, poder e magia.


W. H. Murray, em “The Scottish Himalaya Expedition”

PS: Os versos foram erroneamente atribuídos a Goethe no texto original. Na realidade, são traduções de citações de Fausto, feitas por John Anster em 1835. Eu gosto mesmo assim.

De tudo um pouco:

Conheça também:

O Jardim em fotos

Por onde viajo…

janeiro 2007
D S T Q Q S S
« dez   fev »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  
Anúncios