Numa dessas conversas paciente-médica para passar o tempo durante a realização de um tratamento corporal:
– É, eu ando com alergia a algumas lingeries, fica essa coisa avermelhada…
– Ah, você leu no jornal hoje? Roubaram uma carga enorme de lingerie na Frei Caneca.
(5 seg para pensar como isso se relaciona a minha alergia)
– é? e acharam a lingerie? impregnada com algum tipo de substância?
(essa foi a resposta mais adequada que achei, influenciada por um episódio de House em que 2 meninos quase morreram por usar calças jeans impregnadas de pesticida)
– não, menina! tô pensando em dar uma olhada nos camelôs… devem estar cheios de lingerie barata!

Não canso de ficar boquiaberta com uma declaração dessas. Argumentei da forma mais humana que encontrei:
– Além do roubo ser crime, você já pensou no que pode ter ocorrido com o motorista do caminhão que levava a carga? Talvez tenha sido um roubo violento, talvez ele seja penalizado por ter perdido a carga, talvez ele viva submetido a um nível altíssimo de stress devido ao medo de ter sua carga roubada a qualquer hora…
– É, né? É verdade… Ah, mas a gente gosta de uns produtos baratinhos, né?
(depois dessa, só encerrando o assunto… afinal, enquanto isso, ela me furava durante o tratamento. melhor não arriscar)
– Não, ‘a gente’ não gosta, você gosta. Eu não compro produto roubado.

Me lembrou a quantidade de pessoas que me aconselharam a comprar uma “frente” de rádio de carro no camelódromo (somente a frente destacável, o rádio ficou no carro), quando a minha própria me foi furtada. “É bem mais barato!” – era o argumento mais comum. O risco de comprar a minha própria “frente” de volta foi o mais óbvio dos motivos para que eu não fizesse isso – beira a estupidez.

E continuarei meu tratamento com outra médica. É minha forma de protesto.

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