Uma vez fui a uma casa de samba, dessas famosas pelo Rio de Janeiro.
O moço moreno me tirou pra dançar. Como dançava o moço moreno, me transformava numa super dançarina.
Ser mulher tem suas vantagens. É só se deixar levar e num passe de mágica você está dançando como ninguém.

Meses depois, voltei à casa de samba. O moço estava lá. O moço é disputado.
O moço não me tirou pra dançar. Dançei com outros moços, mas nada como ele. Moço que não sabe dançar eu não gosto.
Pensei em chamar o moço moreno pra dançar. Olhava e quase ia lá. Mas não ia. Timidez mais chata. Que problema tem em chamar o moço pra dançar?

O garçom chegou e me avisou que eu estava sentada em uma mesa reservada. Pra Marisa Monte. Marisa chegou sorridente, simpática e nem quis sentar à mesa, deixou a cadeira pra mim. O moço passou e Marisa o chamou pra dançar. Pelo jeito, ela não é tímida como eu, e se ela chamou, eu também posso. Tomei coragem, e prometi que o chamaria na próxima dança.

E então eu vi os dois dançando. Essa moça esconde o jogo. Com um jeito meio tímido nos shows, de dancinhas simples que alternam pé-pra-cá-mão-pra-lá, ali surgiu uma sambista de primeira categoria, daquelas que sambam de corpo inteiro do pé ao último fio de cabelo no ritmo exato da cadência do samba, aproveitando cada nota, cada variação. Como samba aquela mulher. O moço moreno não é tão mágico a ponto de me transformar numa dançarina daquele porte.

Passado o espetáculo dos dois, que abriu espaço na casa lotada, tive ainda menos coragem de tirar o moço pra dançar. Marisa o emprestou pra suas amigas, e depois dançou e dançou de novo. Se antes eu só queria cantar como ela, agora eu quero dançar. E ter também coragem de tirar moço-pé-de-valsa pra dançar.

Quando ela não estiver por lá, eu tento de novo. Quem sabe da próxima vez.

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