Eu, que nunca cozinhei na vida, ando dando uma de mestre cuca de vez em quando.
Desde que aprendi o que é ‘refogar'(*), tudo ficou mais fácil. Comprei meu primeiro azeite extra-virgem.Beringela, abobrinha e couve-flor refogados ao alho e cebola fizeram parte do meu menu por bastante tempo. Pra incrementar, eu ralava queijo parmesão – porque chef de verdade jamais vai usar aquele parmesão ralado horroroso – e comia legumes ao queijo. Era a época da minha dieta da proteína.

Também por causa da dieta da proteína, e por medo das carnes, passei a acrescentar salsicha. Nunca gostei muito de salsicha, e aí entraram os cogumelos. Muitos champignons fresquinhos na geladeira, prontos para serem refogados.

Consertei meu forno e dei um tempo nos refogados. Sempre achei interessante a idéia de cozinhar com papel alumínio. O shoyu virou meu melhor amigo, e cogumelos ao shoyu no forno meu melhor prato. Por vezes, acrescentava a beringela e a abobrinha.
Mais ou menos nessa época, passei a dar atenção aos temperos porque me deu vontade de comer pimenta rosa. Cogumelos ao shoyu viraram cogumelos ao shoyu com leve toque de pimenta. Tentei essa coisa contemporânea de jogar vinho em comida, mas não gostei muito. Prefiro meu shoyu e vinho na taça.

Deixei de lado a dieta da proteína e quis cozinhar massa. Adoro massa. E então percebi que precisava de 2 panelas para cozinhar a massa e fazer o molho ao mesmo tempo. Comprei mais uma panela, depois outra, e atualmente tenho três!! Comprei tomate pelatti pela primeira vez. Na terceira tentativa, entendi que precisava colocar sal pro molho de tomate não ficar doce. É que sempre me disseram que sal faz mal.

Deu vontade de comer batata, mas preguiça de descascar. Aí lembrei da batata frita com casca do Outback. Juntei com a lembrança das batatas fritas redondinhas da minha mãe e influenciada pela paranóia contemporânea de repressão as frituras, experimentei: cozinhei uma batata também pela primeira vez na vida, fatiei em rodelas e refoguei no azeite. Refogar foi, definitivamente, a grande descoberta da minha vida de mestre cuca.

Batata combina com alecrim, e voltei a dar atenção aos temperos. Vi Jamie Oliver misturar gengibre com hortelã na salada e adorei. Agora, estou com mania de gengibre – é claro – refogado. E hortelã. E alecrim. E cominho. E manjericão. Descobri que a melhor parte de cozinhar é misturar os temperos.

Foi também o Jamie Oliver quem me inspirou a comprar um conjunto de facas. Ainda não fatio as coisas tão rápido quanto ele, mas estou chegando lá. E finalmente, passei a refogar alho e cebola ao invés de usar aquelas misturas prontas. É que agora eu adoro fatiar. Com as facas ou com as mãos. Acho um charme picar coisas com as mãos e colocar em cima do prato de uma forma meio desalinhada. Por isso que decidi torrar um pão integral na torradeira, levar um pouco ao forno pra ficar mais durinho e picar com as mãos, para jogar sobre minha salada de legumes refogados. Amei que tive essa idéia sozinha, sem precisar recorrer ao Jamie Oliver, e agora sei fazer croutons. Incrementei e passei a colocar um fio azeite no pão antes de levá-lo ao forno. Nunca me imaginei falando fio de azeite. Quanta evolução.

Vez ou outra já enfrento as carnes, principalmente depois que descobri que posso comprar filet de frango já temperado. De tanto ver Jamie Oliver cortando limão, eu compro temperada, mas espremo meio limão pra achar que eu tempero alguma coisa. Já faço arroz, desde que descobri que existe arroz integral em saquinho e logo depois de passar a fatiar cebola e alho. Meu arroz é uma delícia.

Ainda preciso fazer um risotto, aprender a escolher carne, perder o medo das carnes, variar mais nos molhos.
Tudo tem seu tempo, e eu não tenho pressa. Me deixa feliz a sensação de que sou capaz de aprender qualquer coisa.
Daqui a um ou dois anos, se não tiver enjoado da brincadeira até lá, convido meus amigos e família pra um jantar.
Por hora, ainda prefiro comer sozinha.
E viva o Jaime Oliver.


(*) Se também nunca te explicaram, tintin por tintin, o que é refogar, eu explico:
– Você coloca a frigideira no fogo.
– Joga um fio de azeite ou óleo – de canola, de girassol, ou o que inventarem que é o melhor no momento. Por um fio, entenda pouco.
– Pegue qualquer alimento e fatie. Pode ser batata, beringela, cogumelo, cebola, alho, abobrinha, pimentão etc. Qualquer alimento, mas não carne. Carne não dá pra comer meio crua, por isso não se refoga, se cozinha. Bom, batata também é bom cozinhar antes ou fica crua. Pense assim: refogue qualquer coisa que vc consiga comer mesmo cru.
– Jogue os alimentos fatiados na panela, ouça aquele ‘xxxxxxxx’, pegue uma colher ou espumadeira (aquela coisa arredondada, cheia de furinhos) e vá mexendo. Não demora muito, normalmente. De toda forma, a qualquer hora que vc decida que está pronto, está pronto. Você vai aprendendo o tal do ponto com o tempo, mas dá pra comer mesmo antes do ponto. O negócio é perder o medo.

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