Eu entrava no avião quando vi um rosto conhecido. O rosto mexeu a cabeça, levemente para baixo, em cumprimento, e eu retribuí enquanto seguia para meu assento em esforço para lembrar de onde conhecia aquele rosto nem tão simpático. Do trabalho atual? Do antigo? Da faculdade, talvez? E enquanto aguardava calmamente a senhora da frente arrumar suas bolsas no bagageiro, relembrava a quantidade de pessoas que encontro em aeroportos e aviões e não sei bem quem são. Consequência dessa minha vida de consultora que me faz conhecer tanta gente por breves períodos em inúmeras cidades, empresas, projetos, reuniões… Falta espaço na memória pra tanta gente – concluí após nem tanto esforço e já distraída ouvindo a mãe, sentada e com livro nas mãos, em momento de sabatina com o filho:

– Qual foi a primeira cidade do Brasil?
– Salvador.
– E onde fica Salvador?
– Na Bahia.
– E quem foi Tomé de Souza?

Tomé de Souza? Não lembro desse não, minha memória está ruim mesmo, melhor esperar aqui pra ouvir a resposta. Mas o menino titubeou na resposta, a senhora acabou de arrumar as bolsas, dei um passo a frente e esbarrei num senhor de cabelos e grossas sombrancelhas brancas, que sorriu pra mim como se me conhecesse. Retribuí novamente, aquelas sombrancelhas me pareciam familiares, talvez mais um conhecido-esquecido, até que ele me surpreende com uma pergunta que eu não entendo, porque nesse exato momento percebi que falava com o Ziraldo!! Devo ter feito uma cara de boba e ele prontamente repetiu a pergunta:

– Tá lendo Playboy, menina??

Me recompus, olhei a revista que a essa altura já havia esquecido que carregava entre-aberta nas mãos, e respondi o que melhor me ocorreu:

– Não, é ‘Nova’ – a playboy das mulheres.

Sorri, ele sorriu, a fila andou, prossegui para meu assento tentando entender o que eu mesma havia dito… Nova, a playboy das mulheres??? Logo eu que nunca compro Nova, mas resolvi comprar hoje? Ai, porque eu não estava com um super livro interessante nas mãos, pro papo prosseguir mais interessante, porque a fila andou, porque eu não disse que era fã, porque não contei que o primeiro livro que li na vida foi dele, porque não disse que amo o menino maluquinho, porque não contei que tenho um blog que é pra ele ler, porque não disse que ele já me escreveu um email, porque meu assento não era do lado do dele???

Muitos assentos atrás do Ziraldo, eu voltei para o Rio espremida ao lado de um rapaz um tanto quanto forte que dormia e roncava no ombro da namorada. Lembrei do bichinho da maçã mais uma vez, o bichinho que vivia feliz até que um dia quase foi comido mas gritou e explicou pro menino-comedor que a maçã era sua casa e que meninos não deveriam comer a casa dos bichinhos. O menino se livrou de uma dor de barriga, o bichinho continuou sua vida feliz, e Deise-Deisoca-menina lia, orgulhosa de si mesma, o primeiro livro de sua vida: “O bichinho da maçã” com essa historinha fofa contada pelo Ziraldo.

Aí lembrei que o próprio Ziraldo já conhece essa história, porque contei uma vez por email. Agradeci por ter me iniciado na leitura, contei dos tantos livros que li depois de estimulada por esse e também que já li essa mesma historinha para algumas crianças, confessei o quão orgulhosa fiquei porque havia uma página inteirinha só de texto que eu li sem titubear, que eu tinha só 4 anos (talvez 5), que aprendi a ler cedo porque minha mãe fazia Picolé comigo e minha irmã me ensinava o que aprendia na escola, que também adoro o menino maluquinho e que uma vez, já adulta, distribuí pra todo mundo no trabalho um adesivo do peixinho que dizia ‘só jogue na água o que o peixe pode comer’ com ilustração dele e que sou super-fã. E ele me respondeu (acabo de resgatar dos meus emails, a resposta data de 08-Ago-2004):

“Deise, um beijão pela história tão comovente para mim. Uma carta como a sua lava a alma da gente. Ziraldo”

Tudo bem. Eu já lavei a alma do homem, hoje posso ser só a garota do comentário bobo de playboy das mulheres. Conformada, resolvi ler minha Nova. E ainda não lembrei quem foi Tomé de Souza.

Anúncios