Dia desses andei de metrô. Faz pouco mais de um ano que me descobri ligeiramente claustrofóbica. Prefiro encarar o trânsito, ver a luz do dia e me distrair com o movimento: gente que anda apressada, a mãe que ensina o filho a esperar o sinal, quem atravessa a rua correndo, o papo escandaloso das duas mulheres do banco da frente, o menino que equilibra incontáveis saquinhos de balas nos ombros, a contadora que detalha os últimos acontecimentos de sua vida para um quase sempre desinteressado motorista que, por vezes, comenta o resultado do futebol com o pipoqueiro e esquece que o sinal abriu, a menina que passa causando breve silêncio na conversa matutina dos machos no boteco. Como tem gente que não trabalha, ou pelo menos, não no mesmo horário que eu. Tenho meus segundos de inveja dos que pedalam suas bicicletas em direção a praia, de quem toma um café da manhã com cara de delicioso na padaria, dos que voltam calmamente de suas compras no hortifruti e dos velhinhos que jogam xadrez na praça. Me perco no meio disso tudo enquanto admiro a beleza do Aterro do Flamengo e quando percebo, cheguei.

No metrô, o tempo passa mais devagar. Do lado de fora é tudo preto, e no de dentro as pessoas raramente conversam, me restando poucas opções de auto-entretenimento. Ler eu não gosto porque odeio ser obrigada a parar um capítulo no meio. Até hoje não me entendi muito bem com meu ipod, de forma que música também não é opção. E também se eu ouço música, eu canto, e prefiro observar a ser observada. Pois na minha última viagem, me faltou o jornal do passageiro ao lado para eu esticar o olho, e depois de cansada de apreciar o mapa relembrando todos os nomes de estação das linhas 1 e 2, me deparei com uma propaganda das pastilhas Valda:

“Você pode não ser teleoperadora, mas sua voz também precisa de um alô!”

E ali encontrei devaneios para uma viagem inteira:
+ Porque teleoperadora, e não teleoperador? Seria uma campanha direcionada as mulheres, talvez menos ávidas consumistas de pastilhas Valda? Ou seria a propaganda simplesmente machista?
+ Seriam as pastilhas Valda tão antigas quanto a expressão “dar um alô”? Aliás, não conheço quem precise de um alô, muito menos o teleoperador que fala de tudo menos “Alô”.
+ Se a propaganda fosse em Portugal seria “Você pode não ser teleoperadora, mas sua voz também precisa de um estou?”. Foi nessa hora que lembrei do meu blog querido, porque esqueci de comentar esse fato que tanto me fez rir em Lisboa. A primeira vez foi na recepção do hotel, o celular da hóspede portuguesa ao lado toca, e ela atende prontamente:

– Estou?

Como não rir disso? Será que alguém atende telefone sem estar? E aí me pego pensando de onde surgiu a expressão “Alô” se não herdamos o ‘estou?’ dos amigos patrícios, imagino que deve ter vindo do “Hello” que nem forró veio de “for all”, e aí já viu. Devaneios e mais devaneios, livres associações na minha mente, e a estação chegou mais rápido. Viva a propaganda de qualidade duvidosa.

* os devaneios transformaram-se em curiosidade, e chegando no trabalho descobri: ‘As pastilhas Valda nasceram em 1902, época em que as doenças pulmonares eram comuns. O francês Henri Canonne, dono de uma farmácia em Paris, lançou uma pequena goma verde que aliviava a tosse’. E eu que tusso até hoje e nunca degustei uma pastilha valda para aliviar minha tosse? Vou tentar.
** A campanha não se limita aos teleoperadores. Tem também o genial: “você pode não ser cantor, mas sua voz não precisa dançar”. Ou “você pode não ser professora, mas sua voz também precisa de atenção”. É, parece que a campanha é ruim e machista mesmo.

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