Olhares
(foto de Deise Lima)
Dora e Wan se conheceram ainda bem jovens, como prova aquela foto antiga na casa da Daniele. Ele já careca-charmoso, ela toda exuberante e os dois se olhando com ares de apaixonados. Dora diz que namoraram 4 meses e, cheia daquele orgulho meio inexplicável feminino, me confidenciou que foi ela quem desmanchou o namoro. “Mas nunca deixamos de nos falar, eu ligava pra ele e conversávamos muito” – emendou.

Ela já não lembra mais quantos anos depois, Wan a reencontrou. Reataram o namoro. Casaram numa igrejinha do Centro da Cidade, e foram se aventurar numa inabitada e longínqua Ilha, que era de um Governador e já tinha sido local de veraneio de muita gente importante. Wan voltou a trabalhar logo após o casamento, deixando Dora em férias a base de biscoitos numa casa sem fogão e vizinha apenas de uma grande floresta de eucaliptos. O amor é mesmo lindo.

E foram surgindo algumas construções e sinais de civilização por perto, veio o supermercado da baleia, a primeira filha, a segunda, muitos passeios em família, do Arpoador a colônias de férias de São Sebastião, veio o clube, os gatos, a adolescência das filhas e alguns cabelos brancos, a reprodução descontrolada dos gatos, a festa de 15 anos, a aposentadoria de Wan e os dois se viram aprendendo a conviver dias inteiros juntos numa mesma casa. Então foram juntos ao clube, agora sozinhos, porque as filhas já metidas a adultas frequentavam faculdade, festas e bares, faziam a casa de hotel e descobriam o mundo.

A essa altura, os eucaliptos já não existiam e a ilha, já bem habitada, não era nem mais tão longínqua assim. As filhas saíram de casa, os dois (re)conquistaram uma casa só pra eles que dividiram com os gatos, e deram para muitos almoços a dois e experiências gastronômicas. Reafirmando diariamente seu amor e companheirismo, em meio a muitas briguinhas, birras e implicâncias. É preciso sempre manter a emoção da coisa toda.

Essa poderia ser só mais uma história de amor, mas não é. É a que me permite escrever aqui para vocês e para uma irmã querida que sempre me lê. Se nunca tivesse acontecido, talvez eu fosse uma Deise que não dança, não fotografa, não escreve e não lê, sem carinho especial pela ilha, sem saber o quanto é bom ter uma irmã e sem dar o valor devido a tudo que tem. Talvez nunca tivesse ouvido música clássica, feito tanto Picolé, assistido a Sidnéia do teatro da TVE ou gostado tanto de matemática. Pode ser que nem gostasse de farofa ou que adorasse carne moída. Sei não, mas acho que seria uma Deise mais chata e sem graça. Ou talvez não fosse nada.

Talvez eles (ainda) não saibam, mas ser fruto de um amor de 34 anos é motivo de muito orgulho. Se nunca disse, digo agora. 13 de junho, 1 dia depois dos namorados, é dia do meu pai e da minha mãe. Esses dois aí da foto, se olhando como naquela foto antiga da casa da Dani, pegos no flagra pelo espelho por essa filha aqui que faz de sua escrita um singelo presente de aniversário de casamento. Espero que gostem 🙂

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E 13 de junho parece mesmo ser o dia do amor.
Hoje, Valentina com 2 meses de idade foi finalmente registrada em cartório por mãe e pai. Parece simples, mas não é. Como Valentina, existem cerca de 50 no mundo. Ela é filha de Gabriela – portadora de síndrome de Down – e de Fábio, portador de um atraso mental. O direito de pai foi inicialmente negado a Fábio, considerado incapaz de declarar ser Valentina sua filha. Mamãe Gabriela apaixonada, apoiada por sua família, se negou a registrar Valentina sozinha, e com toda razão: ela é fruto de amor de pai e mãe. Foi preciso ir a justiça, mas valeu a pena: “Agora eu sou pai. Até ontem eu não era” – declarou Fábio feliz com Valentina no colo.
Valentina é saudável e não é portadora de síndrome de down. Enquanto os homens com Down são estéreis, as mulheres não o são e tem 85% de chances de engravidar de uma criança sem Down.
Como disse minha amiga Simone, vale a pena ler essa história tão bonitinha.
E viva o amor.

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And last but not least: 13 de junho, por muitos anos, foi também dia de celebrar o aniversário daquela que sem ela não existiria amor de Dora e Wan e por isso não haveria Deise ou Daniele ou gatos da família Lima. Dia de Vovó Deolinda – a que declamava poesias, irmã daquele que me escrevia cartas e charadas, acho que foi daí que surgiu esse meu recém-redescoberto gosto pela escrita. Fica aqui meu agradecimento póstumo 🙂

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