Falun Dafa (ou Falun Gong) é uma técnica chinesa para elevação de mente e corpo, baseada em três princípios fundamentais: verdade, benevolência e tolerância. Pratica-se através de cinco séries de exercícios, corporais e de meditação, e promete trazer paz, serenidade e uma maior conexão com a verdade do universo.
Em viagem a Londres, vi um grupo de pessoas numa aparente meditação em uma praça, envoltos por cartazes. Me aproximei, conheci o Falun Dafa – até então desconhecido pra mim – ao mesmo tempo em que descobri que seus milhões de praticantes chineses vem sendo cruelmente perseguidos desde 1999 – data em que o Partido Comunista percebeu que haviam mais praticantes de falun dafa que membros do partido. Os praticantes viraram o grupo reprimido ‘da vez’.

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Dachau
As duas fotos ao lado foram tiradas em Dachau – primeiro campo de concentração construído pelo governo nazista, na cidade homônima, próxima a Munique. “Arbeit macht frei” significa algo como “Liberdade pelo trabalho”.
Todos os outros campos foram criados com base no sistema que foi desenvolvido em Dachau, construído em 1933, logo após a chegada de Hitler ao poder: um lugar criado para para libertar pelo trabalho grupos carentes da suposta dignidade nazista: criminosos, criminosos políticos, pessoas com deficiências, homossexuais, testemunhas de jeová, e os anti-sociais: qualquer um julgado indigno mas que não se encaixasse nas 5 categorias anteriores. No ingresso ao campo, o preso era destituído de todos os seus bens – inclusive de seu nome – ganhava um número, um uniforme e um triângulo cuja cor indicava seu grupo. Durante a guerra, os judeus passaram a ser identificados duplamente: em um dos cinco grupos, e com mais um triângulo amarelo, invertido, formando a estrela de Davi.
Durante 12 anos, milhares foram forçados a trabalhar nas mais diversas indústrias – de construções de estradas a fabricação de armas – sempre retornando ao campo ou pernoitando nos inúmeros sub-campos próximos. Não existem registros de alguém que tenha sido efetivamente libertado por esse mesmo portão – mesmo antes da guerra.
Estima-se que cerca de 30.000 pessoas morreram em Dachau, de desnutrição, doenças, suicídio ou punição. Dachau tem uma câmara de gás que, aparentemente, nunca foi utilizada. Os campos de extermínio surgiram somente durante a guerra.

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A perseguição aos praticantes de Falun Dafa (ou a qualquer outro grupo julgado reacionário) normalmente inclui o envio a campos de trabalhos forçados, com a mesma justificativa de liberdade pelo trabalho. Ou a um campo de re-educação, que não parece muito diferente.
Em Londres, o protesto incluía várias fotos de pessoas liberadas destes campos – que normalmente morrem logo em seguida por desnutrição ou consequência de maus tratos. De 1999 até hoje, 3.000 mortes foram registradas além de cerca de 60.000 casos de tortura.

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A segunda foto, a direita, é de um monumento no memorial de Dachau, com os dizeres “Nunca mais” em diversos idiomas.
Nunca mais?

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Enquanto eu lia os cartazes na praça em Londres – com vontade de fotografar, mas sem bateria na câmara – uma moça chinesa me abordou e perguntou se eu já havia ouvido falar de Falun Dafa ou da perseguição. Respondi não para as duas perguntas, ela perguntou de onde eu era e simplesmente me pediu: não precisa assinar nada, só conte isso para o máximo de pessoas que puder. Foi então que eu prometi escrever sobre o assunto no blog. E assinei o documento, por vontade própria.

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Faz alguns anos, eu li um livro chamado “As boas mulheres da China”, escrito pela jornalista chinesa Xinran Hue. Xinran teve, durante a década de 90, um programa de rádio na China em que recebia ligações de mulheres chinesas e oferecia seus conselhos. O livro reúne algumas dessas histórias e só foi publicado depois que Xinran mudou-se para Londres, onde vive até hoje.
Dentre as histórias, um misto de orgulho da cultura chinesa com amargura e tristeza pelos inúmeros episódios de repressão e direito a liberdade. Lembro a que mais me marcou: a de uma mãe, que cometeu suicídio por enforcamento, depois que soube que sua segunda filha adolescente estava grávida após ter sido forçada a frequentar reuniões do partido comunista, assim como sua irmã mais velha, onde eram repetidamente estupradas. A gravidez para uma mulher não casada é considerada absolutamente imoral, e ela seria certamente banida da sociedade. A mãe não aguentou ver a mesma história, pela segunda vez. Quem ligou para Xinran foi a segunda irmã, que acabou perdendo a criança.
A maior parte das histórias acontece nas cidades rurais, longe do crescimento econômico do país que abriga quase 1\3 da população mundial, deflagrando uma desigualdade e incoerência de difícil compreensão pra alguém aqui, do outro lado do mundo.

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A moça que me abordou em Londres também não vive mais na China. Perguntei se não tinha saudades ou vontade de voltar, e ela não titubeou em responder que não. E ainda acrescentou: sou mais livre para praticar minha cultura aqui do que lá.

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Eu não entendo de política e nem tanto assim de história. Mas não consigo imaginar NADA que justifique tamanha opressão a liberdade de um indivíduo.
Finalmente cumpri com a minha promessa. E diante disso tudo, mesmo amando olímpiadas, sinto vontade de boicotar as de Beijing ao mesmo tempo em que realmente acredito que o esporte tem o poder de fazer frente a tanta opressão, e é capaz de unir pessoas e nações. Ainda não consegui decidir se sou a favor do boicote ou não.

* Mais sobre Falun Dafa aqui.

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