Quando criança, minha brincadeira preferida era o faz-de-conta de escolinha no corredor do prédio. Revezávamos os papéis e, modéstia a parte, eu era a melhor professora. Chorava quando minha irmã ia para a escola e eu não. De tanto chorar, consegui um espaço na cozinha com mais dois amiguinhos, Tia Ilze e a Talita. Acabei alfabetizada – entre panelas, sopas e odores nem tão agradáveis – antes dos 5. Como vê, os primeiros sinais surgiram cedo: nerd, nerd, nerd.

Cresci e, série a série, fui fazendo minha fama no colégio: Deise, a CDF. (para meus leitores mais jovens, traduzo: aposto popular nos meus anos de primário e ginásio, primo de primeiro grau do nerd). O crime duplamente qualificado pelas notas sempre altas, comportamento e assiduidade exemplares- cabalmente comprovados pelos carimbos da caderneta – era ainda fortemente agravado pelo uso da calça de uniforme fora-de-padrão feita pela minha mãe costureira, a ausência de um par de tênis da Redley e de uma mochila da Company e, finalmente, pelas raras aparições sociais. Como atenuantes, contavam a meu favor a compleição física avantajada para a idade, a ausência de óculos ou aparelho dentário e os hábitos desportivos. Quase consegui ser popular, mas não deu. Num ato de desespero, vesti um pequenino collant azul com uma sainha que deixava a polpa de fora e fui rodar meu bastão de baliza a frente da banda da escola. A essa época, quase fui popular. O jeitinho bicho-do-mato de menina mais nova da turma me traiu, e acabei numa espécie de limbo entre a turma dos nerds-cdf’s e a dos populares. Todavia, estou segura de que se eu ousasse perguntar o veredicto final aos populares, eles gritariam em coro: CDF, CDF, CDF! Nerd, Nerd, Nerd!

Coroei a fama escolar passando para o vestibular, em universidade pública, primeiro período, curso de Bacharelado em Informática. Parecia não ter mais jeito. E eis que contra toda e qualquer expectativa, a vida universitária me absolveu. Entre cálculos, integrais e derivadas, e talvez não por escolha, as notas já não me comprometiam mais. Em terra de gêniozinhos, o regular é rei. Dividia meu tempo entre o estágio de monitoria nos laboratórios e os traillers coloridos regados a cerveja e sueca do campus afora. Faltei o quanto pude as aulas para compensar a freqüência acumulada em tempos de colégio. Nem sempre por escolha – já que professor tinha direito à falta também – mas sempre com muita alegria. A monitoria me aproximava de meu passado, é verdade, mas me rendeu ascensão social: os suados R$143 da bolsa da CAPES fizeram toda a diferença. Aprendi a ser a amiga cool dos nerds do laboratório, e transitava muito bem entre os dois mundos. Freqüentava choppadas e viagens a congressos, as tardes de sexta no Grêmio, dava trotes, era famosa pela cantoria nas rodas de violão, bebi cerveja como nunca mais beberia na vida e fiz inúmeras amizades das quais até hoje me orgulho. Só resisti bravamente a sueca. Nunca aprendi a jogar.

Formei-me e fui trabalhar, certa da minha malandragem e jeito descolado de ser. Caí numa empresa cheia de publicitários e designers, nos primórdios da Internet, e descobri o óbvio: tudo é relativo. Entre tênis roxos com bolas amarelas, cabelos verdes e tatuagens corpo afora, voltei ao status de nerd-careta, ainda que uma nerd carismática. E não estava sozinha. Nós, os Nerds do Dev – como éramos carinhosamente chamados, formávamos um grupo pequeno, porém unido, e disposto a provar que nerd também é feliz e sabe se divertir. Nos integrávamos bastante, e não tardou muito para começarem as confissões, tímidas a princípio, mas sempre seguidas de um certo orgulho:

“Sabe, eu também tenho um lado nerd. Já fui viciado em RPG. Quer dizer, confesso, jogo até hoje com um grupo, por email. É uma história de vampiros, as vezes nos encontramos também para jogar ao vivo. E as vezes, a noite, brinco com meu sabre de luz.”
(medo do jogo ao vivo. Mais medo ainda de vampiro com sabre de luz)

“Mas chamamos vocês de nerds com carinho. Até eu tenho um lado nerd: guardo a sete chaves minha coleção de HQ’s e modero uma lista de discussão sobre os universos paralelos do Homem Aranha. Dá trabalho, me toma umas 4h por dia, mas eu adoro”.

“Ah, preciso te contar: quebrei a cabeça mas consegui montar uma rede wi-fi lá em casa, criptografada, e agora posso acessar a Internet de qualquer lugar e consigo conversar com minha namorada enquanto trabalhamos os dois na mesma casa. O máximo. Vocês todos devem ter uma rede assim, né?”
(não, não, querido. Eu não tinha naquela época, nunca tive, e creio que jamais terei)

Foi mais ou menos nessa época que se iniciou o Movimento do Orgulho Nerd. Vários saíram do armário. O nerd contemporâneo é um nerd de nicho: tem o nerd de tecnologia e gadgets, o estilo Star Wars, o tipo ‘super heróis e HQ’s’, o dos jogos eletrônicos, o dos livros de ficção e universos fantasiosos e mais recentemente, o nerd Web 2.0. São todos legais e socialmente incluídos, sem preconceitos. Ser nerd virou cool – principalmente se você usa os tais tênis roxos.

E eis que deixei de ser nerd quando todo mundo queria ser: sempre ignorei Star Wars, nunca entendi a moda de RPG, não vejo graça em jogos eletrônicos e só joguei os que minha irmã (hoje designer e nerd assumida) me ‘obrigou’ a jogar na infância. Não quero um Playstation III ou um WII. Li, com parcimônia, a turma da Mônica, Pato Donald e Mickey e nenhum deles se tornou meu ídolo. Gasto a menor quantidade possível do meu rico dinheiro em gadgets, e só invisto nos necessários para viver (leia-se um celular chinfrim, um laptop e o ápice: um ipod), odeio brincar (brincar?) de montar redes, computadores e tenho muita preguiça de entender como farei para utilizar todo o potencial do recurso de HDTV da nova televisão que comprarei, como ele se relaciona com o decodificador da TV a cabo e que diabos isso tem a ver com a tal revolução do Blue Ray. Não dá só pra ligar e ver TV?

É, já foi o tempo. Não sou mais nerd.

Ou talvez seja. Dentre meus amigos fotógrafos, sou aquela careta que passa 8h por dia no escritório, tem um trabalho que ninguém entende (um Chandler de saias) e que sabe fazer conta bem, donde subentende-se: é boa de matemática. Nerd, nerd, nerd. Uma amiga aprendiz de cineasta, ao ver uma foto de um evento do meu trabalho, foi sincera: “não gosto dessa coisa de rotular as pessoas, mas você só tem colegas de trabalho nerds”. E eles nem usavam óculos.

Talvez para me livrar da imagem pura de nerd careta-clássica que resolvi virar nerd tipo Web 2.0 – um tipo bastante comum e popular. De fato, coloco o Google e o YouTube entre as melhores criações do último milênio, amo o wikipedia e declaro esse amor até no orkut, adoro minha vida de blogueira, e falo com relativa fluência o dialeto da classe repleto de vocábulos estranhos e sopas de letrinhas: RSS, wiki, tag, meta-tag, blog, fotolog, flickr, twitter, podcasts, feeds dentre outros. No entanto, minha recentemente declarada ignorância no quesito multimídia me denunciou. Uma nerd web 2.0 não pode viver sem um bit Torrent (ou similar) instalado. É preciso o download de uma média de 3 séries de TV por semana, 5 lançamentos cinematográficos por mês – sempre seguindo o calendário americano, e antecipando-se a vida dos meros mortais – além de só ouvir música baixada da Internet. Fui banida da classe. Voltei pro limbo.

Nem nerd nem não-nerd. O que me consola é que, dentre minhas amigas-companheiras de sapatilha, eu sou simplesmente uma feliz aprendiz de bailarina. Deve ser meu melhor papel. Vou voltar a dançar.

Anúncios