Ligo a TV, mas não sei o que assistir. Ela liga no SportTv, mas falam de Brasileirão. Penso no quanto o SportTv fatura a mais em publicidade em tempos olímpicos. Será que vão cobrir bem as Para-olimpíadas? Se cobrirem bem, assisto de novo. Se não, contribuirei para a queda do ibope até o próximo Pan.

Já estava acostumada ao silêncio quando comprei uma TV nova, só pra ver as Olímpiadas. Não sei bem o que fazer com ela agora, mas valeu a pena. Superados os traumas de não ter visto Cielo ganhar medalha ao vivo, de ter sido impedida de torcer ao vivo por Jade, Daiane e Diego (quem sabe minha torcida não faria diferença?), e não ter acompanhado nada do judô, voltei pro Brasil e comprei a tal TV. Em uma madrugada inglesa, acordei com a final por equipes da ginástica feminina na BBC, mas não consegui ver nem a pontinha do pé da Jade errando o salto. Só deu americana e chinesa. Nem o Phelps eu consegui acompanhar descentemente por lá. Nem tanto por culpa da BBC, que tenho certeza que noticiou, mas porque ninguém comentava qualquer coisa sobre os jogos. O Reino Unido ficou em 4o no quadro de medalhas, mas os ingleses pareciam ignorar o Olimpo.

Uma semana de volta ao Brasil e TV nova foi o suficiente para me deixar viciada. Amo as Olímpiadas, de A a Z, qualquer modalidade, qualquer nacionalidade, eu acompanho qualquer coisa. Acho mesmo que deve ser por inveja. Dentre tantos atletas dizendo que a Olimpíada é uma competição única – argumento que parece justificar tudo: decepções, derrotas e vitórias – Renata (ou Talita?) soube explicar bem o motivo. Ao chegar na Vila, e se ver no meio de tantos atletas admiráveis, ela (ou elas?) se deu conta que fazia mesmo parte daquilo. Do grupo dos melhores atletas do mundo. Eu invejo. É isso. Só pode ser isso o que me faz ver Bicicross estreando em jogos olímpicos com o nome de BMX as 3 da manhã. Ou ciclismo de pista, torcendo pela holandesa. Até beisebol – que classifico como o 2o esporte mais chato do mundo – eu vi. Quando me peguei assistindo arremesso de peso, lembrei da minha infância de olímpiadas dos triângulos e minha medalhas de arremesso de pelota. E da natação, revezamento 4×100, salto em altura, salto em distância e até de teatro. Já subi no lugar mais alto do pódio, e me pergunto onde será que foram parar minhas medalhas. E se ainda organizam as Olimpíadas dos Triângulos. Talvez não seja só inveja. Pode ser que venha desse passado remoto a minha conexão olímpica.

Mas voltando a Pequim. A TV chegou a tempo de inúmeras entrevistas com Cielo e sua família. Se perdi Larissa e Ana Paula, pude torcer até o fim por Renata e Talita. Me surpreendi com Ricardo e Emanuel perdendo pra Marcio e Fabio Luiz, e torci pelas duas medalhas. Só não consegui torcer pela aberração da dupla rubro-negra-georgiana Geor e Gia – parece até piada. A vela me deu dois felizes “bom dia”: do Scheidt e Bruno Prada e as meninas com o bronze. Perdi uma manhã de trabalho e alguns minutos de vida torcendo por Marta e sua equipe. Tomava meu café da manhã na academia, quando vi a Mauren ganhar o ouro. Ápice olímpico. Acordei cedo, de novo, pra ver Natalia Falavigna ganhar o bronze – perdido em Athenas, apesar de toda a minha torcida.Torci sozinha, debaixo do edredom, pelas meninas do vôlei e me solidarizei com o ‘cala-boca’ da Mari-cara-de-antipática. Sinto um pouco de culpa por ter dormido na final do vôlei masculino. Na loucura da minha mente olímpica acho que a falta da minha torcida fez diferença. Prata sempre tem um gostinho estranho. Vi e revi reprises e comentários no Momento Olímpico, fiquei um pouco mais fã do Marcelo Barreto e me satisfiz assistindo a diversas entrevistas. E a melhor frase olímpica, sem dúvida, foi a do Zé Roberto: “é amarela sim, mas é Ouro!”

Defendi veementemente toda a delegação brasileira, sempre que pude. Acho terrível essa mania de taxar atleta de amarelão. Há quem diga que faltou determinação a diversos atletas. Acho que vivem em outro país que não o meu. Pode faltar muita coisa, menos determinação a quem chega a uma Olímpiada num país com pífios investimentos esportivos como o Brasil. O que faltou foi preparo, em vários casos. E não só o psicológico, simplesmente preparo. Experiência de competição. As meninas do futebol chegam aonde chegam sem ter sequer um campeonato nacional descente. As americanas perfeitas da ginástica artística competem desde sempre, em inúmeros campeonatos juvenis até chegar a uma competição desse porte. As nossas meninas e menino competem quase que somente em etapas do Mundial. E por aí vai. Quem chega lá, já merece nossos aplausos sim. E brasileiro tem é que aprender a parar de colocar todas as suas esperanças em uma meia-dúzia de atletas. É injusto. Ao invés de chamar de amarelão, vê se ajuda a fazer alguma coisa pela estrutura desportiva do país. Ou fica calado. E é isso aí.

Um dia ainda entendo de vez de onde vem minha obsessão olímpica. Por enquanto, vou ver se acho algum outro motivo que justifique essas 26 polegadas na minha parede. E sobre a vara perdida da brasileira, eu não quero nem comentar.

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