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Manhã chuvosa de segunda-feira, eu bebia meu café com muffin de chocolate no aeroporto de Edimburgo, quando ouvi o anúncio:

“Flight BE7254 has been delayed undefinetly as aircraft got hit by a bird.”
(Vôo BE7254 está atrasado, pois a aeronave foi atingida por um pássaro)

Sempre achei que essa história de pássaro que entra na turbina de avião fosse lorota. Dessas histórias que todo mundo conhece, jura que acontece, mas ninguém nunca viu.

Eu vi. Passarinho espírito-de-porco. Foi mirar justamente a aeronave reservada para o vôo que deveria ter saído na noite anterior, justamente aquela que estava quebrada e foi consertada durante a noite. Diabo de passarinho que resolveu sacanear 78 pessoas que já esperavam há 12h por um mísero vôo de 1:30h até a Inglaterra.

Se não houvessem outras 77 pessoas comigo, eu diria: essas coisas só acontecem comigo. Poucas horas depois, chegou nova aeronave – em perfeito estado de funcionamento e fora da trajetória de pássaros. As 13h de segunda, pisei em solo inglês. Com deliciosas 15h de atraso, esplendidamente desfrutadas entre filas, frio, espera por táxi e pouquissimas horas de sono em um quarto com cara de motel na beira de estrada.

That’s my life.
E Edimburgo? Uma graça de cidade. Fui para conhecer seu Festival de Arte, tido como o maior do mundo. Dura todo o mês de agosto, e é realmente impressionante. Mas o assunto fica para outro post.

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Costumo viver dentro dos limites da lei. Sou certinha. Pago as contas em dia, todos os impostos e as multas que me cabem. Estacionava -quando tinha carro – nos locais permitidos, atravesso na faixa para pedestres e me recuso a ter uma carteira de estudante para obter descontos indevidos. E a lista continua.

Não é a primeira vez que me sinto uma constante infratora em terras britânicas. Trabalho para uma empresa situada numa antiga fábrica. São vários prédios, com uma área de estacionamento central, aberta.

Fim de tarde, peço meu táxi e vou aguardar na portaria principal. Cansada de esperar, encosto na guarita dos seguranças.

– Senhora, não é permitido enconstar aí.

Outro dia. Aguardo meu táxi no mesmo lugar. Vejo um gatinho, perto da saída dos carros. Vou até lá fazer um carinho.

– Senhora, não é permitido ficar aí. Muito perto da passagem de carros. É perigoso.
(nem sinal de carro)

Pego o gatinho para levá-lo até meus 10m2 de espaço permitido para aguardar meu táxi.

– Senhora, por favor, não pegue o gato.
(até agora não entendi o motivo. mas o moço foi enfático)

Saio do prédio para ir almoçar no refeitório, em outro prédio. “Corto” um caminho de cerca de 30m, atravessando pela área destinada a passagem dos carros que nunca passam.

– Senhora, por favor, vá pela calçada. Não é permitido andar aí.
(e volto 15m para refazer o caminho pela calçada)

Saindo do estacionamento, dessa vez de carona com um colega, ouvimos uma espécie de apito. Vem o segurança ‘simpático’:

– Senhor, a velocidade máxima permitida é de 10km\h. O senhor estava a 20km\h. Permita-me ver seu passe.
(eles usam os mesmos aparelhos móveis que se usa nas estradas, inclusive no Brasil. dia seguinte, havia uma notificação para meu amigo)

Em Londres, os táxis só podem parar em determinadas ruas. Na dúvida, leve sempre uma mapa, pois é possível que você seja despachado um pouco distante de seu destino.
No aeroporto, fila de raio-x, além da típica paranóia da retirada de sapatos, não é permitido ajudar outra pessoa. Já presenciei um homem com um bebê de colo tendo que amarrá-lo nas suas costas com o casaco, para tirar os sapatos. Não há uma cadeira. A moça que tentou ajudá-lo foi rapidamente repreendida pelo agente da polícia.

Me recebem com simpática fila para ‘the rest of the world citizens’.
Me fazem 5min de perguntas desconfiadas para me deixar entrar.
As lojas, a exceção de Londres, abrem de 09 as 17h. Super fácil comprar.
Pergunto aos meus colegas de trabalho, qual (e onde) seria a melhor loja para eu comprar alguns eletrônicos. 3 colegas ingleses me responderam:

– Tem várias. Dá uma olhada na internet.

Assim. Seco. Mudando de assunto. Acabei pegando carona com um alemão, que me deixou num shopping, me listou as lojas e deu inclusive dicas de melhores preços.

Não quero ser chata, mas é difícil gostar dos ingleses. Pra piorar, eles tem mau hálito. E, cada vez mais, gosto dos alemães.

Sábado, 02 de agosto, 17:30h. Saí de casa. Assim que cheguei ao aeroporto, as 18:00, e fiz meu check-in em 10min para o vôo com partida agendada para as 20:05, me arrependi – mais uma vez – por seguir a recomendação de 2h de antecedência para vôos internacionais. E tive a certeza absoluta de que o vôo atrasaria. Todo mundo sabe que check-in rápido é sinônimo de vôo atrasado, assim como check-in atrasado é sinal de vôo na hora.

Calmamente, troquei dinheiro pra viagem, fiz um lanche, fui a farmácia, comprei meu estoque de revistas de fofoca e fui pra sala de embarque. Tirei o laptop da mochila, passei no raio-x, apitou, voltei, tirei o cordão, passei de novo, guardei o laptop, coloquei a mochila nas costas, peguei a câmera, minha bolsa e a sacola de revistas e caminhei até o portão 32. Eram 19h.

Uma revista inteira depois e nada de chamada pro embarque. O moço da frente, acompanhado do filho de uns 6 anos que falava metade em português, metade em inglês e com umas palavras soltas em espanhol, queria puxar papo. Contou que mora em Miami, perguntou pra onde eu ia, reclamou do Brasil que nunca melhora, reclamou também da TAM e disse que American Airlines é a melhor companhia aérea que existe, a despeito de ter, possivelmente, os aviões mais apertados do mundo – fato que eu introduzi na conversa, confesso, pra ver se dava uma de antipática e o moço desistia do papo. Nada feito. Ele seguiu a conversa me perguntando o preço da gasolina na Inglaterra – porque eu saberia? – e reclamou de novo do Brasil e de sua gasolina cara, mas o pão de açúcar é mesmo lindo.

– “Esse aqui não queria sair do bondinho” – falou mexendo na barriga da criança que, a essa hora, já quase dormia.
– Ai, pai, tô dormindo!
– É, esperar dá um soninho, né? Também estou com sono.
– Viu, pai? Deixa a moça dormir, you talk too much!

Quis beijar aquela criança, enquanto ria pro pai que ria de volta em sorriso-amarelo e cheio de vergonha. Minutos de silêncio depois, já eram 20h, quando anunciaram a troca de portão de embarque. Peguei a mochila, minha bolsa, a bolsa da câmera, as revistas, me despedi de pai e filho, e fui me arrastando pelo aeroporto.

Mais meia-hora de espera, chamada para o embarque. Fila. Demorado trajeto até aeronave. Corredor estreito, minha mochila batendo nas pessoas, pedidos de desculpas até que sentei. Ao meu lado, o papo era sobre Pequim e me dei conta que muita gente estava a caminho da China. Me deu uma pontada de inveja. Dormi.

Acordei 50min depois, aeroporto de Guarulhos. 22:00. Mais 1h até novo embarque. Peguei a mochila, minha bolsa, a bolsa da câmera, a sacola de revistas e andei, andei. Fila de raio-x. De novo. Esperei. 30min. Tirei o laptop da bolsa, passei no raio-x, apitou, tirei o colar – de novo – voltei, guardei o laptop, coloquei a mochila nas costas, peguei minha bolsa, a bolsa das câmeras e a sacola de revistas e fui. De novo.

Fiz uma parada rápida para comprar um novo livro. Cheguei no portão de embarque com a moça, aos berros, perguntando se haviam mais passageiros preferenciais. Agradeci em silêncio, mais um vez, a classe executiva paga pelo trabalho. Me tornei a primeira da enorme fila.

15 min e um rápido trajeto de ônibus depois, eu estava guardando a mochila, bolsa e bolsa da câmera, deixando a sacola de revistas na poltrona vazia ao lado. Sentei, levantei o apoio para pés, reclinei um pouco o banco, escolhi uma revista, aceitei o proseco e as nozes, castanhas e avelãs quentinhas. Não sei o que será de mim na próxima vez que viajar a passeio, de econômica.

Foram 11h de vôo. Jantar servido logo após a decolagem, por volta de 01:30 da madrugada. Li um pouco do livro e tentei assistir a um filme, mas o sono me impediu. Reclinei os 180 graus da minha poltrona, me cobri, e dormi. Acordei pouco antes do café da manhã. Acho que eram 08:30. Comi, vi o resto do filme, li, preenchi formulário de imigração e cheguei. Com 1h de atraso, as 12:30 – hora do Brasil, 16:30 – horário londrino.

Mochila nas costas, bolsa, bolsa da câmera, sacola com algumas revistas a menos que deixei a bordo. E fui. Andei, andei, andei. Muito mais que em Guarulhos. Lá fora, chovia. Odeio aeroportos, odeio mais ainda esse aqui, e odeio esse tempinho mixuruca dessa cidade. Acho que estou de mau humor.

Fui recebida após simpática fila para ‘rest of the world citizens’ (cidadões do resto do mundo). Pelo menos, a fila foi rápida. É que sou um resto vip: a executiva me permite ser das primeiras a chegar, antes da fila formar-se. Amo essa business class. Rápida, mas nem por isso sem perguntas: porque veio, pra onde vai, trabalha pra onde, qual sua profissão, fica quantos dias, qual a cidade, qual o hotel, como vai até lá e enfim, o carimbo. Andei mais, peguei um carrinho, coloquei mochila, bolsa, bolsa da câmera e sacola de revistas, esperei minha mala, esperei, esperei. Chegou, peguei, saí.

Não sei que cara tenho, vai ver é minha cara de mau humor, mas um nada simpático senhor, da policia, me parou no trajeto entre a esteira de bagagens e a saída. Essas malas são suas? Sim, são. Vem de onde? Brasil. Veio fazer o que aqui? Trabalhar, pela minha empresa. Ah, é? Aquele senhor ali trabalha na sua companhia, você o conhece? Não, não conheço. Mas ele também é brasileiro. Sim, senhor, mas a empresa é grande.

Até agora não entendi bem o porquê, mas o policial chamou o moço, nos apresentou, trocamos duas palavras em português – acho que para mostrar intimidade e aplacar a possível (e incompreensível) desconfiança, pediu para ver nossos passaportes, os analisou calmamente e nos liberou, com o primeiro quase-sorriso de toda a conversa.

Eram 17:30h – horário local. Me aguardava o motorista com o logo da empresa. Perguntei quanto tempo de viagem, e fui informada que, com sorte, 01:30h. 01:15h depois, acordei, descobri que o motorista era bastante pessimista, e as 18:50h entrava no meu quarto de hotel. 14:50h – hora do Brasil. 23 horas e meia perdidas em trânsito. Chovia.

Troquei de roupa e gastei grande parte de minha energia acumulada em 40min de bicicleta, 200 abdominais, 30min de transport, 10min na piscina. Bateu fome, e as 21h ainda estava claro e eu estava no restaurante do hotel. Ainda chovia.

No momento, vejo a versão inglesa de BB – onde o Big Brother é Big Brother de verdade, os participantes falam besteiras, um casal briga, a namorada chora o tempo todo e é odiada pelo resto da casa, os participantes andam de roupão e tem gente embaixo do edredom – de novo ele. Parece que a fórmula é igual no mundo todo. Mesmo.

21:58h – hora do Brasil. 01:58h – hora local. Já li metade do livro comprado antes da viagem, alguns capítulos do anterior e me informei sobre a viagem de Luciano Szafir, Xuxa e Sasha a Paris. Escrevi um post (o anterior), e desandei a escrever aqui, no melhor estilo ‘meu querido diário’, minhas últimas 29h.

Adoro viajar, não me entendam mal. Mas sonho com a invenção do tele-transporte e com a revogação do fuso-horário. Pelo menos, o cobertor aqui é de lã. Acho que durmo sem pesadelos. Boa noite.

“Sr Fridiksson me contou que aquela tranquila personagem era apenas um ‘caçador de gansos’, aves cuja plumagem constitui a maior riqueza da ilha. Na verdade, essa plumagem se chama edredom, e não é preciso despender muito movimento para consegui-la.
Nos primeiros dias do verão, a fêmea do ganso vai construir o ninho entre os rochedos dos fiordes que recortam toda a costa. Uma vez construído, ela forra esse ninho com penas finas que arranca da própria barriga. Logo o caçador, ou melhor, negociador, chega, pega o ninho, e a fêmea tem que recomeçar o trabalho. Isso continua acontecendo enquanto lhe resta alguma plumagem. Quando fica completamente sem nenhuma, cabe ao macho depenar-se. Como a pena dura e grosseira deste não tem nenhum valor comercial, o caçador não se dá ao trabalho de roubar o ninho da sua cria. Então, o ninho é concluído, a fêmea bota os ovos, os filhotes saem e, no ano seguinte, recomeça a colheita do edredom.”
(trecho do livro “A viagem ao centro da Terra”, de Julio Verne)

* E agora tenho pesadelos com gansos-fêmea depenadas e magrelas ou comigo mesma roubando cobertores de seres indefesos que deixo, sem dó, no frio. Maldito edredom amarelo de penas de ganso. Até quis me livrar dele, mas é tão bom…
** A ilha mencionada é a Islândia. Adoro descobrir mais sobre lugares que raramente lembro da existência. Islândia, até então, era simplesmente sinônimo de Bjork pra mim.
*** Não passa de mera coincidência a simultaneidade de minha leitura com o filme recém-lançado, baseado na obra. Julio Verne ainda é resquício do projeto-silêncio. Comprei, há alguns anos, dois pocket books de suas obras mais famosas, para me familiarizar. E estou adorando. Recomendo.
**** Odeio pocket books, na maior parte das vezes. Estou na página 175, e o livro já se despedaça.

Quando criança, minha brincadeira preferida era o faz-de-conta de escolinha no corredor do prédio. Revezávamos os papéis e, modéstia a parte, eu era a melhor professora. Chorava quando minha irmã ia para a escola e eu não. De tanto chorar, consegui um espaço na cozinha com mais dois amiguinhos, Tia Ilze e a Talita. Acabei alfabetizada – entre panelas, sopas e odores nem tão agradáveis – antes dos 5. Como vê, os primeiros sinais surgiram cedo: nerd, nerd, nerd.

Cresci e, série a série, fui fazendo minha fama no colégio: Deise, a CDF. (para meus leitores mais jovens, traduzo: aposto popular nos meus anos de primário e ginásio, primo de primeiro grau do nerd). O crime duplamente qualificado pelas notas sempre altas, comportamento e assiduidade exemplares- cabalmente comprovados pelos carimbos da caderneta – era ainda fortemente agravado pelo uso da calça de uniforme fora-de-padrão feita pela minha mãe costureira, a ausência de um par de tênis da Redley e de uma mochila da Company e, finalmente, pelas raras aparições sociais. Como atenuantes, contavam a meu favor a compleição física avantajada para a idade, a ausência de óculos ou aparelho dentário e os hábitos desportivos. Quase consegui ser popular, mas não deu. Num ato de desespero, vesti um pequenino collant azul com uma sainha que deixava a polpa de fora e fui rodar meu bastão de baliza a frente da banda da escola. A essa época, quase fui popular. O jeitinho bicho-do-mato de menina mais nova da turma me traiu, e acabei numa espécie de limbo entre a turma dos nerds-cdf’s e a dos populares. Todavia, estou segura de que se eu ousasse perguntar o veredicto final aos populares, eles gritariam em coro: CDF, CDF, CDF! Nerd, Nerd, Nerd!

Coroei a fama escolar passando para o vestibular, em universidade pública, primeiro período, curso de Bacharelado em Informática. Parecia não ter mais jeito. E eis que contra toda e qualquer expectativa, a vida universitária me absolveu. Entre cálculos, integrais e derivadas, e talvez não por escolha, as notas já não me comprometiam mais. Em terra de gêniozinhos, o regular é rei. Dividia meu tempo entre o estágio de monitoria nos laboratórios e os traillers coloridos regados a cerveja e sueca do campus afora. Faltei o quanto pude as aulas para compensar a freqüência acumulada em tempos de colégio. Nem sempre por escolha – já que professor tinha direito à falta também – mas sempre com muita alegria. A monitoria me aproximava de meu passado, é verdade, mas me rendeu ascensão social: os suados R$143 da bolsa da CAPES fizeram toda a diferença. Aprendi a ser a amiga cool dos nerds do laboratório, e transitava muito bem entre os dois mundos. Freqüentava choppadas e viagens a congressos, as tardes de sexta no Grêmio, dava trotes, era famosa pela cantoria nas rodas de violão, bebi cerveja como nunca mais beberia na vida e fiz inúmeras amizades das quais até hoje me orgulho. Só resisti bravamente a sueca. Nunca aprendi a jogar.

Formei-me e fui trabalhar, certa da minha malandragem e jeito descolado de ser. Caí numa empresa cheia de publicitários e designers, nos primórdios da Internet, e descobri o óbvio: tudo é relativo. Entre tênis roxos com bolas amarelas, cabelos verdes e tatuagens corpo afora, voltei ao status de nerd-careta, ainda que uma nerd carismática. E não estava sozinha. Nós, os Nerds do Dev – como éramos carinhosamente chamados, formávamos um grupo pequeno, porém unido, e disposto a provar que nerd também é feliz e sabe se divertir. Nos integrávamos bastante, e não tardou muito para começarem as confissões, tímidas a princípio, mas sempre seguidas de um certo orgulho:

“Sabe, eu também tenho um lado nerd. Já fui viciado em RPG. Quer dizer, confesso, jogo até hoje com um grupo, por email. É uma história de vampiros, as vezes nos encontramos também para jogar ao vivo. E as vezes, a noite, brinco com meu sabre de luz.”
(medo do jogo ao vivo. Mais medo ainda de vampiro com sabre de luz)

“Mas chamamos vocês de nerds com carinho. Até eu tenho um lado nerd: guardo a sete chaves minha coleção de HQ’s e modero uma lista de discussão sobre os universos paralelos do Homem Aranha. Dá trabalho, me toma umas 4h por dia, mas eu adoro”.

“Ah, preciso te contar: quebrei a cabeça mas consegui montar uma rede wi-fi lá em casa, criptografada, e agora posso acessar a Internet de qualquer lugar e consigo conversar com minha namorada enquanto trabalhamos os dois na mesma casa. O máximo. Vocês todos devem ter uma rede assim, né?”
(não, não, querido. Eu não tinha naquela época, nunca tive, e creio que jamais terei)

Foi mais ou menos nessa época que se iniciou o Movimento do Orgulho Nerd. Vários saíram do armário. O nerd contemporâneo é um nerd de nicho: tem o nerd de tecnologia e gadgets, o estilo Star Wars, o tipo ‘super heróis e HQ’s’, o dos jogos eletrônicos, o dos livros de ficção e universos fantasiosos e mais recentemente, o nerd Web 2.0. São todos legais e socialmente incluídos, sem preconceitos. Ser nerd virou cool – principalmente se você usa os tais tênis roxos.

E eis que deixei de ser nerd quando todo mundo queria ser: sempre ignorei Star Wars, nunca entendi a moda de RPG, não vejo graça em jogos eletrônicos e só joguei os que minha irmã (hoje designer e nerd assumida) me ‘obrigou’ a jogar na infância. Não quero um Playstation III ou um WII. Li, com parcimônia, a turma da Mônica, Pato Donald e Mickey e nenhum deles se tornou meu ídolo. Gasto a menor quantidade possível do meu rico dinheiro em gadgets, e só invisto nos necessários para viver (leia-se um celular chinfrim, um laptop e o ápice: um ipod), odeio brincar (brincar?) de montar redes, computadores e tenho muita preguiça de entender como farei para utilizar todo o potencial do recurso de HDTV da nova televisão que comprarei, como ele se relaciona com o decodificador da TV a cabo e que diabos isso tem a ver com a tal revolução do Blue Ray. Não dá só pra ligar e ver TV?

É, já foi o tempo. Não sou mais nerd.

Ou talvez seja. Dentre meus amigos fotógrafos, sou aquela careta que passa 8h por dia no escritório, tem um trabalho que ninguém entende (um Chandler de saias) e que sabe fazer conta bem, donde subentende-se: é boa de matemática. Nerd, nerd, nerd. Uma amiga aprendiz de cineasta, ao ver uma foto de um evento do meu trabalho, foi sincera: “não gosto dessa coisa de rotular as pessoas, mas você só tem colegas de trabalho nerds”. E eles nem usavam óculos.

Talvez para me livrar da imagem pura de nerd careta-clássica que resolvi virar nerd tipo Web 2.0 – um tipo bastante comum e popular. De fato, coloco o Google e o YouTube entre as melhores criações do último milênio, amo o wikipedia e declaro esse amor até no orkut, adoro minha vida de blogueira, e falo com relativa fluência o dialeto da classe repleto de vocábulos estranhos e sopas de letrinhas: RSS, wiki, tag, meta-tag, blog, fotolog, flickr, twitter, podcasts, feeds dentre outros. No entanto, minha recentemente declarada ignorância no quesito multimídia me denunciou. Uma nerd web 2.0 não pode viver sem um bit Torrent (ou similar) instalado. É preciso o download de uma média de 3 séries de TV por semana, 5 lançamentos cinematográficos por mês – sempre seguindo o calendário americano, e antecipando-se a vida dos meros mortais – além de só ouvir música baixada da Internet. Fui banida da classe. Voltei pro limbo.

Nem nerd nem não-nerd. O que me consola é que, dentre minhas amigas-companheiras de sapatilha, eu sou simplesmente uma feliz aprendiz de bailarina. Deve ser meu melhor papel. Vou voltar a dançar.

De tudo um pouco:

Conheça também:

O Jardim em fotos

Por onde viajo…

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