A natação é um esporte completo, sempre ouvi dizer. E clinicamente recomendado pra tudo: problemas ortopédicos, respiratórios, de coordenação motora, para reabilitação. Dizem que se você colocar um bebê recém-nascido na água, ele nada. Que nem cachorro, e até mesmo os gatos – apesar de fugirem da água. Nadar é democrático, é para todos e é também cada um por si. O mais solitário dos esportes. Não tem idade certa pra começar. E é como andar de bicicleta: se aprende uma vez para nunca mais esquecer.

Foram as para-olímpiadas que me fizeram refletir sobre a vocação democrática desse esporte que eu nunca gostei. Preste atenção: o basquete é para os cadeirantes, mas é indispensável ter os dois braços perfeitos. Corre quem é cego e quem tem deficiência motora, mas é fundamental ter as pernas. Na corrida para cadeirantes, é fundamental ter os dois braços. O futebol de cinco é só para os deficientes visuais, a bocha incluiu os que tem grave deficiência motora mas exclui os cegos. Outras modalidades do atletismo exigem, ao menos, um par de membros perfeitos.

Enquanto isso, nas piscinas, estão os cegos, os amputados, os que têm praticamente qualquer tipo de deficiência motora. Uma nadadora brasileira, que volta com medalha de bronze, sofre de uma doença degenerativa incurável e, no momento, tem os movimentos completos apenas do braço direito. Parece também não importar a quantidade de membros. Tem nadador sem os braços, sem as pernas, sem os dois ante-braços e parte de uma das pernas. Parece não ter limite. Todos nadam, tem categoria pra todo mundo. É, definitivamente, um esporte completo.

Hoje foi o último dia de competições no Cubo d’água. Fechamos com uma medalha de prata no revezamento 4x50m medley. Daniel Dias, nosso Phelps brasileiro, terminou com nada menos que 9 medalhas. E foram tantas outras medalhas brasileiras, pena que não sei citá-las todas aqui.

E eu, que passei boa parte da vida reclamando por ser obrigada a nadar, proclamo: viva a natação. Entre braçadas e pernadas, tem espaço pra todo mundo. Nade você também.

* breve update para-olímpico:
– temos uma dupla de tenis de mesa para cadeirantes na final; foi uma supresa bem-vinda.
– a semi-final do basquete para cadeirantes foi canadá x eua. deu canadá no final, de virada com duas prorrogações, num jogo super emocionante. a final é canadá x austrália. promete ser um jogaço, e é hoje a noite.
– Lucas Prado é um corredor brasileiro que entregou a medalha ao seu guia no lugar mais alto do pódio. foi emocionante. atletas-guia deviam ganhar medalha também.
– estamos indo bem no futebol de cinco, para cegos. vale dizer que o goleiro não tem nenhuma deficiência. e parece que estamos no caminho da final.
– estamos no 11o lugar no quadro de medalhas.

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