Festa de aniversariantes do mês do projeto. Todos os meses era a mesma coisa. A gente se reunia na sala de reunião onde estava o bolo, as velas, os docinhos e refrigerantes, e a secretária ia chamar os aniversariantes. Os papéis eram muito bem definidos nesse teatrinho: os aniversariantes deviam fingir surpresa ao entrar na sala, sorrindo um sorriso bem grande. Nós cantaríamos o parabéns, cada um em seu idioma. Estávamos em Caracas, trabalhando todos em um projeto globalizado: tinha latinos das origens mais variadas, além de alemães, americanos, malasianos e indianos. Eu, a única brasileira.

Os aniversariantes abrem a porta, fazem a cara de surpresa, sorriem e dá-se início a cantoria. Eu bato a primeira das palmas que pretendia bater para acompanhar o momento festivo. Todos me olham, é minha vez de rir sem graça e continuar sem as palmas. Essa cena se repetiu 5 vezes, e eu nunca fui a aniversariante.

Tente cantar parabéns sem bater as palmas você também. É quase impossível. Mas até hoje, ainda não conheci outro povo – que não o brasileiro – com esse alegre hábito na hora de apagar as velinhas. Será que você já? Me conta?

Aliás, acho o ‘Cumpleaños feliz’ que cantam nossos vizinhos latinos um tanto quanto triste. Eles levam num ritmo lento, sem palmas, tá mais pra música de funeral(*). Os mexicanos têm uma variação própria e essa eu acho bonitinha. É uma música longa, em outro ritmo, que fala alguma coisa sobre muitas manhãs de sol – mas também sem as palmas.

(*) essa coisa de música pra funeral me lembrou o filme de estréia de Matheus Natchergale na direção: ‘A festa da menina morta’, que conta a história de uma comunidade ribeirinha no Amazonas que todos os anos celebra a tal festa para a menina, da qual acharam apenas os trapos cheios de sangue há 20 anos, e que acaba virando uma espécie de ‘santa’ local. O filme, que ainda não foi lançado, está prometendo. Espero que Matheus seja tão bom diretor quanto é ator.

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