sábado, eu vi um arco-íris. na praia, fim de tarde. tempo nublado, lembrei de pensar: ‘mas arco-íris não é só em dia de sol e chuva?’. foi assim que me ensinaram, mas não chovia nem fazia sol. talvez tenha tido casamento de viúva, em algum lugar. somewhere over the rainbow. over the rainbow, quem sabe alguém achou um pote de ouro, mas a mega-sena acumulou. arco-íris é uma profusão de cores tão bela, tão encantadora que me faz lembrar meu pai, que cantava:

i see skies of blue. clouds of white.
bright blessed days, dark sacred nights.
and i think to myself: what a wonderful world.

the colors of a rainbow, so pretty in the sky.
are also on the faces of people going by
i see friends shaking hands, saying ‘how do you do’
they’re really saying: ‘i love you’

arco-íris me faz pensar como é belo o mundo, como é boa a vida, como há prazer nos mais pequenos e naturais acontecimentos. como é bom ter amigos, amiga que comigo assistia o arco-íris. a areia que massageia meus pés e eu adoro. o som das ondas que me acalma. as gaivotas que voam e me distraem, ainda que as inveje. o mundo é bão, joão.

meu pai escolheu essa música pra dançar valsa com minha irmã aos 15. meu pai deve ter sido o primeiro ateu que conheci. não sei se Louis Armstrong era ateu, mas essa música sempre me soou como uma ode ao ateísmo. pelo menos é assim na minha cabeça. celebra quem gosta de celebrar a vida simplesmente pelo que ela é, sem crenças meta-físicas, sem depositar no divino esperanças ou culpas. que convive com o mistério da vida, do universo, do mundo como isso que é: um mistério. parcialmente explicado pela ciência talvez, mas ainda assim repleto de um não-saber que não precisa de respostas imediatas, precipitadas, inventadas, desesperadas.

não sei dizer se são assim todos os ateus. o que sei é que sou uma atéia assim e talvez por isso. independente do meu ceticismo, da hipocrisia das instituições religiosas, das guerras que se fizeram e ainda se fazem em nome da fé, ou mesmo das minhas escolhas, nunca senti a necessidade de crer no além, no divino. simplesmente não sinto. todo o resto me parece ter sido consequência.

não tenho fé, mas acredito em mim. acredito no amor, na paixão, na bondade, na fraternidade, na amizade e em mais muitas coisas que não vejo, mas sinto. acredito na igualdade e que todos merecem ser bem tratados. não acredito em raças superiores, nem arianas nem humanas. não acredito que o diferente é errado, simplesmente por não ser igual a mim. não acredito em certo e errado, não sou muito de regras mas nem por isso sou anarquista e prezo pelo convívio social. porque gosto de gente. não sou perfeita, e admito que possa estar errada. tento não julgar baseada puramente na minha vivência, mas sei que julgo ainda que evite – e não evito por culpa. evito porque acredito que da prática da tolerância brotaria um mundo melhor de viver. um mundo meu que se uniria mais ao seu, certamente não no todo mas em maiores interseções.

acredito na maldade, na crueldade, na intolerância, no ódio, simplesmente porque existem ainda que não os sinta, exceto eventualmente. acredito no caos, no acaso completo, na falta de ordem, de motivo, de razão. mas sigo vivendo a tentar por ordem, porque no longo prazo tudo fica mais simples com início, meio e fim. a sensação de controle é o que me prende ao mundo que nos é comum, ainda que seja tudo pura ilusão. isso sou eu, não é o mundo. e por mim, está bem que seja assim.

acredito na natureza e na sua força. acredito na prepotência humana, na minha e na sua. na estupidez de quem se acha dono daquilo de que é só parte. nas mudanças climáticas, que toda ação tem uma reação e a natureza a nossa volta reage. na inevitabilidade dos ciclos e das eras, tão maiores que nós. acredito na pequenez humana, na pequenez da Terra e na grandeza do universo. acredito que há muito que não conhecemos, ou seria um enorme desperdício de espaço. acredito em Carl Sagan.

acredito na vida, na sua insignificância diante do todo e não gosto da morte. no meu mundo, quem morre me faz falta, e falta é saudade que dói e de dor não gosto eu, e aposto que nem você, seja ateu, judeu, católico, evangélico, hindu, muçulmano, budista ou hare-chrishna. mas me fascina o ciclo da vida, e pra ser ciclo há que ter um fim. aceito.

pra quem não tem fé, eu acredito em muita coisa. e adoro um arco-íris. porque é belo e é misterioso. porque é substantivo sem plural. é singular. único. como eu. ou como o que eu gostaria de ser. adoro rainbow, que traz a chuva (rain) embutida, e tem jeito de nome de picolé. admiro a originalidade e criatividade dos gays que escolheram o arco-íris como símbolo. fantasio o arco-íris. um delírio sensual, arco-íris de prazer. há poucas coisas melhores na vida que fantasiar, imaginar, inventar, brincar, levitar. somewhere over the rainbow, way up high, there’s a land that I heard of once in a lullaby. where the dreams that you dare to dream really do come true. sonho com o pote de ouro. adoro a Dorothy, o Magico de Oz, e creio piamente que que não há lugar como a minha casa. adoro cultura, cinema, música e tantas outras coisas que o homem inventou. adoro o homem. os homens, ainda que nem todos. adoro ser mulher, adoro as mulheres. amo muitos homens e mulheres, e nem por isso o arco-íris é símbolo meu – infelizmente. quero um arco-íris pra chamar de meu. e muitos novos dias de sol e chuva.

(para meus queridos leitores que não falam inglês, traduzo livremente a música citada)

eu vejo céus azuis. nuvens brancas.
claros dias abençoados, escuras noites sagradas.
e eu penso comigo mesmo: que mundo maravilhoso.

as cores de um arco-íris, tão belo no céu.
estão também nos rostos das pessoas que passam
eu vejo amigos apertando mãos, dizendo ‘como vai você’
eles estão realmente dizendo: ‘eu amo você’

Anúncios